A independência como pilar da credibilidade institucional
Em investigações internas corporativas, a credibilidade não se sustenta apenas na técnica, no método ou na aderência a normas. Ela se constrói, sobretudo, na percepção de independência de quem conduz o processo. Quando essa independência é colocada em dúvida, ainda que de forma indireta ou potencial, todo o trabalho passa a carregar um risco silencioso que nenhuma robustez procedimental é capaz de neutralizar por completo.
Conflito de interesses, nesse contexto, deixa de ser um conceito meramente normativo e passa a ocupar o centro da discussão institucional. Não como exceção, mas como um dos principais fatores capazes de comprometer a confiança, a legitimidade e a aceitação dos resultados de uma investigação.
Embora amplamente tratado em códigos de conduta, políticas internas e treinamentos, o conflito de interesses raramente se apresenta de forma objetiva na prática. Na maior parte das vezes, ele emerge em zonas cinzentas, por meio da sobreposição de interesses legítimos, pressões comerciais, expectativas estratégicas e incentivos financeiros relevantes. É nesse ambiente que o compliance deixa de ser um exercício formal e passa a exigir discernimento, maturidade e julgamento.
Em investigações internas, a independência não pode ser apenas formal. Ela precisa ser percebida, sustentada e defensável ao longo do tempo. A confiança no resultado não decorre apenas da qualidade técnica da apuração, mas da convicção de que não houve qualquer influência, ainda que indireta, capaz de comprometer a isenção da análise.
Entre a oportunidade e o desconforto
Ao longo da minha trajetória profissional, vivi uma situação que ilustra com clareza esse dilema.
Tratava se de uma investigação de grande porte, complexa, com impacto financeiro relevante e potencial significativo de crescimento para a consultoria. Do ponto de vista técnico, não havia qualquer limitação. Contratualmente, tampouco existia impedimento explícito. Sob a ótica comercial, era uma oportunidade clara e legítima.
Ainda assim, havia um desconforto difícil de ignorar.
O contexto revelava a existência de um potencial conflito de interesses. Não evidente, não formalizado, mas presente em uma zona cinzenta. Um cenário em que seria possível avançar amparado por interpretações defensáveis, cláusulas contratuais e racionalizações razoáveis. Um caminho que muitos, compreensivelmente, escolheriam seguir.
Foi nesse momento que a discussão deixou de ser técnica e passou a ser institucional.
No campo do compliance, o verdadeiro teste não está na capacidade de sustentar uma decisão sob o ponto de vista argumentativo, mas na consistência dessa decisão quando analisada à distância do interesse imediato, do resultado financeiro e da conveniência estratégica de curto prazo.
Suspeição como decisão estratégica
A decisão foi pela declaração de conflito de interesses e pela suspeição. Comunicamos de forma transparente, reconhecemos os riscos e declinamos da oportunidade.
Não foi uma escolha simples. Significou abrir mão de um trabalho relevante, de honorários expressivos e de um impacto financeiro positivo no curto prazo. Ainda assim, foi a decisão correta.
Suspeição, nesse contexto, não representa fragilidade técnica nem excesso de cautela. Representa maturidade institucional. É o reconhecimento de que a legitimidade de uma investigação não depende apenas da qualidade da execução, mas da ausência de qualquer dúvida razoável quanto à independência de quem a conduz.
Não por acaso, frameworks internacionais de governança e gestão de riscos tratam o conflito de interesses como um risco estrutural à confiança institucional quando não adequadamente reconhecido e tratado. A própria Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico aborda o tema sob essa ótica, associando conflitos não endereçados à erosão da legitimidade das decisões públicas e privadas. Da mesma forma, modelos consolidados de Enterprise Risk Management relacionam conflitos não geridos a impactos diretos na reputação, na sustentabilidade e na qualidade da tomada de decisão.
O valor que se constrói no longo prazo
Há decisões que não aparecem no demonstrativo de resultados. Não geram faturamento imediato, não são celebradas em comunicados internos e tampouco produzem ganhos visíveis no curto prazo.
Ainda assim, são essas decisões que constroem reputação, credibilidade e confiança.
Optar pela suspeição diante de uma dúvida legítima é escolher um caminho mais exigente. Exige coragem para contrariar expectativas, resistir a pressões e aceitar perdas momentâneas em nome de algo maior, a coerência institucional e a preservação da confiança do mercado.
As melhores práticas de governança corporativa no Brasil reforçam esse entendimento ao tratar a independência, a transparência e a gestão adequada de conflitos como pilares essenciais para a legitimidade das decisões. Não se trata apenas de cumprir normas, mas de proteger a integridade do processo decisório e, por consequência, da própria instituição.
Uma reflexão necessária
A reflexão proposta aqui não se ancora em fatos isolados, pessoas ou instituições específicas. Ela se apoia nas escolhas estruturais que definem a credibilidade de quem atua em ambientes de alta complexidade decisória.
Em quantas situações zonas cinzentas são tratadas como aceitáveis em nome da conveniência Em que momento a linha entre oportunidade e risco reputacional se torna tênue demais E, sobretudo, até que ponto estamos dispostos a sustentar decisões difíceis quando elas não produzem ganhos imediatos.
Conflito de interesses e suspeição não são apenas conceitos jurídicos ou requisitos formais de compliance. São escolhas morais, estratégicas e institucionais. Escolhas que, embora custosas no presente, são as únicas capazes de sustentar valor real no longo prazo.
Porque a confiança, uma vez comprometida, raramente se reconstrói. E a coragem necessária para preservá-la quase sempre passa despercebida, até o dia em que faz toda a diferença.
Sobre o autor
Vinicius Cassimiro Carvalho é fundador da Kassy Consultoria, especialista em investigações corporativas, compliance e governança. Com mais de 17 anos de experiência na área, liderou projetos estratégicos em grandes organizações e hoje atua apoiando empresas a estruturarem respostas efetivas a crises de integridade e desafios operacionais. Também é fundador da Democratizando, palestrante e professor convidado em cursos e eventos sobre ética, conduta, privacidade e liderança com propósito.
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